CORINGA E UMA SOCIEDADE TÃO CRUEL QUANTO O PRÓPRIO VILÃO
“É impressão minha ou o mundo está cada vez mais louco?” Arthur Fleck
(ALERTA DE POSSÍVEL SPOILER, SE PÁ, PULA)
O filme transmite uma aura da qual você não consegue se livrar.
Você leva o filme para casa. Você relembra, repassa e repensa várias cenas.
Você dorme com ele.
E então você relembra de mais coisas. E aí mais elementos passam a fazer sentido.
Na minha opinião, o filme pode ser visto muito mais como um grito de alerta sobre questões diversas, entre elas: Pressão pela felicidade constante, transtornos psicológicos, da invisibilidade de tantos que não se encaixam nos moldes à doença mental sem que haja tratamento adequado, o papel da assistência social, o descaso político com a condição dos cidadãos em cidades violentas, depressão, psicose, busca pela fama e pela adoração, além, é claro, da relação entre esses aspectos e a facilidade de aquisição de armas de fogo.
O filme nos faz sentir empatia e repulsa simultaneamente, é uma viagem cada vez mais visceral e profunda em um universo que a loucura se encontra com a crueldade. E essa crueldade não vem apenas por parte do personagem principal, mas também da sociedade. E isso fica claro, quando Arthur (Coringa), afirma sobre o quanto a sociedade espera que as pessoas com alguma deficiência ajam como se não as tivessem.
Apesar de nenhum diagnóstico específico ser exibido durante a trama e ser difícil cravar quais transtornos o Coringa tem, fica claro que o personagem sofre de múltiplos quadros psiquiátricos: ele toma sete medicamentos diferentes, menciona já ter sido internado em manicômio e fantasia sobre um relacionamento que não existe. Arthur Fleck, sofre de um transtorno denominado Transtorno da Expressão Emocional Involuntária. A característica mais simbólica desse transtorno, no caso do Coringa, é a falta de controle sobre o próprio riso, não sendo ele condizente com sua emoção.
Ao longo da trama, vamos caminhando junto com o personagem e percebemos que além da falta de tratamento público a sua patologia (seja pela falta de acompanhamento psiquiátrico, seja pelo corte de medicamentos), apresenta uma série de fatores como maus tratos na infância, que sinalizam traumas profundos que podem ter relação com as características do personagem tanto no nível psicológico quanto no físico – uma vez que casos do dito riso patológico estão relacionados a lesões no crânio; um possível abandono parental também mostra efeitos na capacidade de socialização. Somam-se a isso algumas caraterísticas psicóticas, como alucinações esquizofrênicas, o eco do pensamento e ideias de controle delirantes (CID 10).
Porém, apesar de relacionar acima uma série de quadros psiquiátricos, é necessário dizer que, quem pensa que a violência cometida no filme é gerada apenas pela saúde mental debilitada do personagem se engana. O ambiente e as relações sociais contribuem, e muito, para que o personagem se torne violento, não somente suas doenças.
Apenas um pequeno percentual de pessoas com transtornos mentais se torna violenta. Se fosse o contrário, as penitenciárias seriam hospícios e, na verdade, já sabemos que é mais comum que os detentos comecem a desenvolver quadros psiquiátricos após entrarem no cárcere.
O maior problema apresentado no filme, não é a ideia do portador de sofrimento mental grave ser enaltecido por seus atos violentos, mas sim pelo fato de sermos parte de uma sociedade tão doente que o Coringa acaba sendo glorificado justamente por ser quem é.
Para finalizar, gostaria de colocar aqui alguns questionamentos:
O que leva um filme com uma abordagem mais complexa da psique do indivíduo ser visto como estímulo a determinadas práticas (como colocado em algumas críticas), e diversos outros filmes de assassinos em série não causem a mesma comoção?
Porque os filmes que mostram o mesmo personagem já consolidado executando dezenas de mortes não é tão impactante? Ou mesmo, porque filmes de ação onde as mortes são tantas que acabam se naturalizando não geram uma reação igual ou maior?
Por que filmes com homens enormes matando gente como quem troca de roupa nos parecem quase besteirol, mas ao abordar a violência associada a diversos fatores sociais, políticos e de saúde pública soa como um risco?
Eu respondo, pois se aproxima da realidade!
Cabe aqui aproveitar a ocasião para falar da importância do tratamento psicológico de forma universal. Ao falar de transtornos, para além dos estigmas e estereótipos, é fundamental que se diga que existem inúmeras possibilidades de tratamentos e que o paciente pode ter uma vida mais estabilizada e em equilíbrio, uma vez que seja seguido um tratamento bacana para sua condição. Todos (TODOS) deveriam buscar acompanhamento psicológico, psicanalítico e, em muitos casos, também psiquiátrico.
É importante mencionar que a psicopatia não significa necessariamente um indivíduo violento. Isso é um estereótipo.
Patricia Perez – Psicóloga